Tu e eu na Bienal de S. Paulo
Lembras-te de Paris, dos «kir» (com vinho branco, não com «champagne») que bebíamos no café da Rua do Louvre, perto do CFPJ, enquanto alimentávamos o vício pelas jogatinas de «flipper»? De Bissau, contigo a comer 23 bananas de rajada no Palácio Presidencial? Das torneiras de ouro na casa de banho do Presidente Nino Vieira? Dos sapos que queriam entrar nos nossos quartos do Hotel 24 de Setembro? De Bubaque, da cama que partilhei contigo e o Jorge Nuno Oliveira e em que, porque fui dançar até de madrugada, tive de dormir no meio de dois mafarricos? Da nossa viagem a Gardhaia, na Argélia, às profundezas da História? Do Capitão Pombo e do voo que quase nos marcou encontro com a morte? De Nice, e do «chaparro» do Miguel Dimas, olhos esbugalhados em plena rua e às voltas como uma barata tonta, a gritar que nunca tinha visto «tanta mulher boa por metro quadrado»? Do Vítor Bandarra (o «bandalho») e da sua namorada sueca? Do nosso jogo de futebol contra a França, com um garrafão de vinho na linha lateral para matar a sede, sobretudo a dos franceses? Dos jogos de jornalistas em Cádis, na Espanha? Da nossa viagem a Nova Iorque e da tua atracção pelas cubanas? Da «quase» limousine que nos levou de Nova Iorque a Nova Bedford? Dos nossos jantares no Brasil, na Paulista e em Osasco? Do Herberto, das suas Martas e miradas às orientais? Lembras-te, «desgraçado», de me teres usado nas tuas peças de reportagem como «plano de corte»? Do teu «Mini» em que enfiavas 9 lá dentro e nos conduzias orgulhosamente do Estoril até ao Guincho? Dos telefonemas que me fazias tratando-me de «canalha bolchevista» e eu te respondia com um «diz lá, porca fascista»? Lembras-te das nossas cachimbadas, enquanto jogávamos ao «scrabble» ou ao «gamão», nas praias da «linha»? Lembras-te das minhas carícias verbais: «ET», «banana», «touro sentado», «o maior copiador de textos que o Olimpo à terra deitou»? Do ar provocador e malicioso da Ana quando te declarava que eu era o seu namorado nº 1 e o seu par favorito na dança? Dos jantares e das tuas tardes no meu terraço, em Almeirinho? De tudo o que aprendi contigo? Das nossas zangas ridículas? Da viagem que queríamos fazer à Patagónia e a Barilhoche, na Argentina? Da picada da abelha na «comuna» da Antónia, em Óbidos? Da nossa viagem Minho dentro? Do bacalhau, do moscatel e das receitas que me trazias? Do cachaço no forno, com batatas ou castanhas, que eu fazia e tu devoravas? Do jantar pantagruélico com que a tua filha nos brindou? De eu ter aparecido com um ramo de cravos e um esfusiante «25 de Abril, Sempre!» no dia do nascimento da Rita e do ataque de «reaccionarismo» da Ana perante tal «afronta»? De me teres «raptado» a minha gata Rô e a levado para o Porto durante uns dias? De não parares de me chatear para eu escrever o livro que um dia te dedicarei?Conheço-te bem José Pedro Barreto, meu «pinga amor» do caraças, cronista favorito, minha enciclopédia ambulante, dono de uma escrita de encantar com que sempre me roí de «inveja». És tão sacana que, só para chatear, és bem capaz de me dizeres que não te lembras. Seja como for, tens-me no retrovisor, não te livras assim tão facilmente de mim. Prepara o tabuleiro de «scrabble», de «Risco» ou de «gamão». Mais tarde ou mais cedo, voltaremos a estar juntos para eu te dar uma abada.
Lê e escreve em paz, Zé.
Amo-te.
Amo-te.

Anónimo disse...
ResponderEliminarO facto de não O conhecer pessoalmente, não impede que sinta a sua falta e lamente a sua partida. Adorava ler os seus textos nos blogues. Fará falta a muita gente, em especial famíliares e amigos como tu.
Ler-te aqui, neste testemunho de amor ao teu amigo, ´provoca-me um aperto na garganta e os olhos queimam.
Não tenho uma ínfima parte do vosso dom de escrita, e assim fico por aqui para não me "espalhar" mais.
Abraço
L
Meu querido manel,
ResponderEliminarPassa querido, vai custar um pouuinho, mas a dor vai virar só saudades, que arranha mas não sangra tanto.
Este texto reflecte um sentido de vida e de amizade encantador. Precisamos de manter viva esta dupla que nos enche todos os dias o nosso computador com este sentido de vida e esperança que está sempre em cada amizade que se fortalece. Muito obrigado. Luís Mendes
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